Sobre homicídio doloso

Por Eder Barbosa de Melo
Publicado originalmente do Recortes



















Eles se entreolharam com desdém, como se na ira de suas retinas coubessem armas nocivas, capazes de fulminar o outro. Seguiam em direção ao púlpito, apertaram as mãos com frieza, esquivando-se da possibilidade de um abraço, afastaram-se. Para sempre. A cena se repete nos diversos arraiais evangélicos. O Corpo de Cristo recebido indignamente. Os sermões sobre a piedade ecoam. Escoam pelo ralo.

A igreja tem caído no indiferentismo. Relações aparentemente harmoniosas sucumbem diante do desprezo. Interesses opostos. Posições confortáveis. Mesas fartas. Não se presta muita atenção nas pessoas. Muitos serviços ministeriais com embasamento em discursos filantrópicos, na realidade, dissimulam demagogias. A negligência tornou-se um ciclo vicioso. Peca quem sabe fazer o bem e se omite.

Crimes hediondos são cometidos todos os dias. À queima roupa. O destrato, a mania de subjugar, a intolerância. Não há quem se comprometa. Por acaso, sou eu responsável pelo meu irmão? Se vira! Réus confessos, com prazer na desgraça alheia. Quem odeia a seu irmão é homicida. Assassinamos nosso irmão dentro de nós. Desistimos da impossível tarefa de suportar em amor. Quando extinguimos a possibilidade de manter relações de cordialidade, comunhão. Terrorismo espiritual!

Preconizo a necessidade de reaprendermos a amar. Amar por completo, amor não fingido, como está escrito: não de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. O amor não foge quando as coisas ficam difíceis, não deserta diante de adversidades, nem se dilui na divergência. O amor desconfia dos fatos, não faz caso de certos argumentos, não é mesquinho, não tem medo de parecer incoerente, nem faz juízo. O amor liberta!

Esse sentimento desditoso que proclamam por aí não é amor. O amor não é obsoleto, nem desnecessariamente austero. Não impõe regras descabidas. Não se limita ao abraço escuso diante de uma platéia, ou a um mero palavreado pueril. Quanto mais amamos, mais tornamos sensíveis à necessidade de outro. Amor desprovido de interesse. Quem tiver bens deste mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus? Sons que tinem de vasos vazios. Os dons que se fazem vãos, a fé declinando ao mausoléu. O amor cobrirá a multidão de pecados!

Minha súplica: anseio fervorosamente que o Teu amor me cure. Quem não ama permanece na morte. Se afligido sou por meus próprios conflitos, não quero me apresentar diante do Juiz como impiedoso contrabandista de corpos desprezados, almas combalidas aguardando um gesto meu, que recusei, intimidado pela ausência de esforço para viver o amor que discursei, mesmo conhecendo meu competente Advogado. Respingos de sangue nas mãos. Frases que calei, sorrisos que omiti, afetos que neguei, alianças que desfiz, promessas que não cumpri, delitos que cometi... Quão culpável e insensato. Não tens ao culpado por inocente. Somente a tua graça me justifica.

Meus anelos se resumem em me revestir desse amor, que é o vínculo da perfeição. Aguardo ansiosamente o dia em que o amor prático não seja apenas um sonho distante, retórica engessada pela mediocridade. Encenação de gente inclemente, falsa devoção, dolo. A indiferença é como arma de destruição em massa, pode ser pior que o ódio. Que a esperança de tornamos semelhantes ao Pai, nos purifique. Que a graça e o amor de Deus nos absolva, nos declare inocentes!

"Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será convosco". 2 Co 13 :11

1 comentários:

Infelizmente é uma realidade. Que pena.